segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O Cristo Reflexivo (Rūpintojėlis )

Rūpintojėlis Marcelo Teson Marcelo Teson.

Uma das imagens mais importantes da cultura e do folclore lituano é o Cristo reflexivo (pensador), Rūpintojėlisesculpido em madeira (dievdirbiai). Em posição de pensamento, sentado em uma pedra com a mão no rosto, os cotovelos apoiados no joelho e na cabeça, a coroa de espinhos, marca do seu flagelo. A imagem é uma referência a paixão de Cristo e ao momento imediatamente anterior a sua crucificação. As primeiras imagens encontradas são da segunda metade do século XIV e foram difundidas nos séculos XVI e XVII e podem ser encontras principalmente no norte da Alemanha e na Polônia.
Na Lituânia, as imagens eram esculpidas nas árvores e em troncos de madeira, principalmente em meio as florestas e também eram colocados nas encruzilhadas das estradas. Atualmente, as esculturas estão presentes nas casas, nas igrejas.
O significado da imagem, para os lituanos, mudou ao longo dos séculos. No fim do século XIX, com o início do movimento nacionalista romântico, estudiosos do folclore começaram a pesquisar a produção desta representação e a associá-la com a identidade nacional dos lituanos. Os folcloristas viam em sua produção uma forma sincrética (síntese) entre as referências do cristianismo popular com as reminiscências (permanências) do paganismo. Lembrando que a Lituânia foi a última região da Europa a ser cristianizada.
Com a Lituânia independente (1918 e 1940), a imagem se consolidou como um símbolo religioso e nacional. Com a ocupação e anexação da Lituânia a União Soviética (1945 – 1990), a imagem ganhou um novo significado. Em um período marco pela perseguição cristianismo e suas atividades limitadas, com as deportações em massa e a resistência nacional nas florestas, o Cristo reflexivo passou a ser associado as injustiças e aos sofrimentos impostos ao país. Novamente uma associação entre a religiosidade popular em seu sincretismo com os sentimentos nacionais.

sábado, 25 de agosto de 2018

O Caminho do Báltico

Caminho do Báltico foi uma das mais belas demonstrações pacíficas de descontentamento e contestação à União Soviética unindo a população dos três países Bálticos: EstôniaLetônia Lituânia. A demonstração reuniu dois milhões de pessoas, ou seja, quase um quarto do total da população das três então Repúblicas Soviéticas e entrou para o Livro dos Records como a mais longa corrente humana ao cobrir um total de 600 Km. O movimento foi um dos pontos centrais no processo político que levou a independência da URSS. 
O dia era 23 de agosto de 1989, a União Soviética passava por uma grave crise econômica, social e ideológica. A crise se fazia sentir em todos os aspectos da vida cotidiana e os sentimentos nacionais, sobretudo no Báltico, começavam a se exaltar e a formar um movimento pela autonomia e posteriormente pela independência da Estônia, Letônia e Lituânia.
A data da manifestação foi escolhida justamente por contestar a anexação dos países Bálticos à União Soviética, pois naquele mesmo dia, no ano de 1939, foi assinado o pacto Ribbentrop-Molotov entre a Alemanha nazistae a União Soviética. O pacto, no que foi tornado público, era de não agressão, mas existia um protocolo secreto que dividia toda a região do Báltico em áreas de influência entre os dois regimes totalitários. 
Durante quase cinquenta anos, a URSS negou a existência do protocolo secreto, mas com a Perestroika, o tema voltou à tona e, em 18 de agosto de 1989, a URSS admitiu a existência dos protocolos soviéticos-nazistas. Esses protocolos provocaram questionamentos ainda maiores sobre a legitimidade da ocupação soviética das três Repúblicas, forçadas a ingressar na URSS em pacto secreto de guerra. Na EstôniaLetôniaLituâniapassou-se a defender abertamente que os três países deveriam ter a sua independência restaurada, com as mesmas fronteiras do período anterior a 1940. 
O Soviete Supremo da Lituânia, órgão maior da administração da República Soviética da Lituânia, acusou a URSS de uma ocupação ilegal e um protesto se seguiu reunindo milhares de pessoas. As bandeiras do período da independência começaram a se espalhar entre os manifestantes, flores e o Caminho do Báltico, nas estradas que contornam o Báltico na fronteira com o restante da URSS começou a se formar uma corrente humana em uma separação simbólica do Báltico da URSS. O Kremlin não havia autorizado a manifestação e existia o medo e o perigo de que houvesse uma forte repressão, no entanto, a polícia não interferiu durante a manifestação.
A ideia de independência já havia ganho o coração e mentes da população do Bálticoe pouco depois ela seria conquistada com o processo de colapso da União Soviética. 

Exposição Caminho do Baltico
Estônia. Foto: Erick Zen, janeiro 2017
Exposição Caminho do Baltico
Estônia. Foto: Erick Zen, janeiro 2017

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Filme sobre a deportação em massa na Lituânia: Ashes in the Snow


Erick Reis Godliauskas Zen

No último dia da Conferência da AABS 2018 (Association for Advancemente of Baltic Studies) realizada na Universidade de Stanford tivemos o prazer de assistir o belo filme Ashes in the Snow do diretor Marius Markevicius, estrelada por Sophie Cookson e inspirado na obra literária Between Shades of Gray da Ruta Sepetys.

Direitor Marius Markevicius e autora Ruta Sepetys
Foto: Erick Zen
É um filme emocionante que mostra um episódico dramático vivenciado pelos lituanos (e demais países bálticos). Em 1941, Estônia, Letônia e Lituânia estavam sob ocupação soviética e sob o comando de Stalin foi organizada uma brutal deportação em massa para a Sibéria daqueles que eram considerados “inimigos” do povo e suas famílias.
No filme, e no livro, o dramático episódio é narrado pelos dramas e experiências de uma menina de dezesseis anos com dons artísticos e inspirado pelo pai a perseguir a carreira de pintora. A vida da personagem foi arruinada pelo assassinato do pai e a deportação dela, junto com a família, para a Sibéria onde são colocados em trabalho forçado, em situação de miséria absoluta e condições que ferem a dignidade humana. 
Ver o trailer (aqui)
Vale a pena conferir o filme e o livro (disponível em inglês) é sempre interessante vermos a Segunda Guerra Mundial por outras narrativas que não a dos vencedores. Ao mesmo tempo longe dos heróicos filmes de Guerra e de batalhas gloriosas tão presentes no cinema a sensibilidade e drama humano ganham voz nos personagens do cotidiano. Gosto de filmes, e livros, que nos levam por esse caminho e essa é uma bela obra nesse sentido.
Os temas lituanos são bastante presentes na obra do jovem diretor Markevicius, talvez algo que a diáspora lituana sempre carregue com ela e seus descendentes seja o encantamento pelos dramas da Lituânia, e por isso eu deixo aqui mais uma recomendação do mesmo diretor: The Other Dream Team (2012). Esse um documentário sobre a seleção da Lituânia de basquete que disputou a Olimpíada de Barcelona (1992) pela primeira vez como país independente depois do fim da anexação a União Soviética e ganhou o terceiro lugar.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

testemunho da história

Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
Twitter: @erickrgzen

Quando os lituanos chegaram ao Brasil na década de 1920 encontraram uma situação bastante difícil, principalmente nas fazendo do interior paulista. Nas fazendas de café, nos frigoríficos a esperança por encontrar terra à disposição morreu na exploração do trabalho e na vida precária. Uma testemunha desta história registrou a chegada dos lituanos e como eles tiveram que viver...

Irineu Luís de Moraes, conhecido como "Índio", nasceu em 1912 e foi um importante militante na organização sindical dos trabalhadores rurais no nordeste de São Paulo. Em 1930 ele ingressou no PCB (Partido Comunista Brasileiro). Índio muitas vezes discordou da direção que o Partido tomou, sobretudo da forma como negligenciava a questão agrária. Em 1945 organizou a Liga Camponesa de Dumont, a primeira do Brasil. Durante a Ditadura Militar (1964 - 1985) ele aderiu à Aliança Nacional de Libertação, liderada por Marighella. Preso, foi torturado e condenado. Permaneceu dois anos na prisão. Liberado em 1974, ele retomou às atividades junto ao PCB. Em 1986 abandonou o Partido e no ano seguinte ingressou no Partido dos Trabalhadores (PT). 


Em suas memórias Irineu deixou a seguinte observação sobre a chegada dos imigrantes lituanos na década de 1920: 

"O frigorífico era dos ingleses. Um dia chegou uma leva, um trem completo, lotado de pessoas: homens, mulheres, crianças, todos lituanos daquele lado da União Soviética. Eles vieram numa miséria danada, mas o frigorífico os recolheu. Foram instalados num barracão muito grande. Botaram todo mundo lá, mais de quinhentas pessoas, numa promiscuidade danada. Era uma coisa. Bom, a gente não tinha nada com isso: o frigorífico pôs os lituanos no barracão, está bom. Mas logo depois, notamos que a direção do frigorífico chamou cinco ou seis mulheres lituanas para trabalhar na secção da lataria de banha. Elas entravam lá, não sabiam falar português, não sabiam nada, mas as brasileiras foram ensinado o serviço. Dentro de quinze dias as lituanas já estavam praticamente fazendo tudo, porque era trabalho prático.
De repente os ingleses mandaram as brasileiras embora. Dispensaram as brasileiras para ficar com as lituanas porque o salário delas era menor. Nós prestamos atenção naquilo." 

Referência: WELCH, Cliff  SEBASTIÃO, Geraldo. Lutas Camponesas no interior paulista: Memória de Irineu Luís de Moraes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p. 30.