quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Adam Mickiewicz e a Identidade Nacional.


Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
Twitter:@erickrgzen
            

Os poemas de Adam Mickiewicz (1798 - 1855) coloca-nos de imediato diante dos dilemas da identidade nacional, ou melhor, da elaboração e reelaboração das identidades. É um caso típico de como os usos que fizeram de sua obra se tornaram tão importantes (ou mais) do que aquilo que pretendia o autor. Evidentemente que faço aqui referência aos aspectos políticos do seu texto e deixo a apreciação literária para aqueles que possam melhor analisá-las.

            Contudo, antes de iniciar qualquer análise sobre a vida e obra deste autor, é necessária uma advertência. Durante o período da independência do Império Russo (1918) até a anexação à União Soviética no pós Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945) algumas versões falsificadas do poema circularam na Lituânia e foram utilizadas nas escolas e no ensino oficial. O governo nacionalista, sobretudo no período do Presidente Antanas Smetona, fez modificações significativas na obra excluindo do poema todas as referências à Polônia, ao território polonês ou a qualquer coisa que pudesse ser associada aos poloneses. Em outras palavras, o governo nacionalista lituano se apropriou do texto e, da sua forma, transformando-o em uma obra de culto nacional e de referência para a construção do sentimento nacional lituano. Essa forma falsificada foi distribuída na integra ou em partes nas escolas lituanas na América e ainda circulam nas bibliotecas. Dessa forma, o leitor atento, que queira entrar em contato com o texto original deve procurar a versão editada na Polônia ou aquela utilizada na Lituânia durante o período soviético.


Quem foi Adam Mickiewicz?

            Adam Mickiewicz foi o mais importante poeta romântico do início do século XIX para ao menos três grupos nacionais: os poloneses, os lituanos e os bielorrussos. Essa condição de imediato nos revela a situação de um poeta que busca o seu lugar em meio a um vasto Império Russo, cujo extenso território abrigava uma enorme diversidade de idiomas e culturas cujas divisões internas se dão pela conveniência administrativa do czarismo e que um indivíduo circulava, sem muitos conflitos entre diferentes grupos linguísticos e referências culturais, sem que isso significasse necessariamente um conflito.

            Assim, Mickiewicz ingressou na Universidade na cidade de Vilnius – atual capital da Lituânia – e ali frequentou as aulas que eram ditadas em idioma polonês. Neste período, o Império Russo não impunha um idioma como língua oficial e havia uma tolerância para que diferentes idiomas fossem utilizados nos centros educacionais. Mesmo na capital do Império Russo, havia o ensino do latim nas universidades.

            A Universidade de Vilnius passava por um momento de raro interesse e esplendor, pois o Czar Alexandre I (1777 - 1825), em sua perspectiva de ampliar o ensino no Império Russo, autorizou a reabertura de uma escola fundada pelos Jesuítas em 1575, agora como Universidade. A Universidade de Vilnius contava ainda com o apoio de um dos principais conselheiros políticos de Alexandre I, o Príncipe lituano-polonês Adam Czartryski (1770 -1861), (se considerarmos apenas a questão territorial para atribuir a nacionalidade deveríamos dizer que ele era ucraniano). Czartryski tinha uma influência muito forte sobre o Czar, sobretudo no que se referia à reforma administrativa que Alexandre I desejava introduzir.

            Nestas condições, a Universidade de Vilnius conseguiu reunir o que havia de melhor para ali ensinar e instruir a elite local, bem como aqueles que passaram a procurar a Universidade como centro de excelência. A palavra "local" aqui se refere àqueles que pudessem entender o idioma polonês, o que evidentemente não era para todos ou não era nem mesmo para a elite de origem russa.

            Depois de concluir os primeiros estudos (escolar básico) em Kaunas, Wickiewicz ingressou na Imperial Universidade de Vilnius que o poeta aprimorou o seu conhecimento no idioma e também a conhecer as obrar ocidentais, em particular as que eram parte do movimento “romântico” que tomava força na Europa, sobretudo neste primeiro momento do romantismo alemão e neste a valorização da cultura local, do chamado movimento que se dedicava a registrar a chamada “cultura popular”, ou seja, a valorização da cultura dos camponeses, das manifestações linguísticas, dos seus mitos, lendas e outras tradições orais, além das festividades e das danças e cantos. Foi no romantismo alemão que também encontrou uma forma poética, sobretudo em Goethe, para expressar os dilemas e tensões de seu tempo. É bem possível que a forma de narrativa poética adotada por Mickiewicz tenha sido inspirada nas obras do escritor alemão.

            Essa trajetória que teve início em Vilnius se viu interrompida, pois o czarismo tinha períodos de tolerância, mas era uma autocracia e não aceitava  qualquer contestação às suas ações. Na Imperial Universidade de Vilnius, desenvolveu-se um grupo de estudantes que se dedicava à cultura e ao idioma polonês (Towarzystwo Filomatów) que era orientada pelas concepções românticas. O grupo foi descoberto e colocado na ilegalidade pelas autoridades imperiais, pois a sua percepção romântica se combinavam com uma ideia de autonomia polonesa.

            Essas atividades levaram Mickiewicz ao exílio interno, uma medida administrativa comum no Império Russo. Estabeleceu-se em São Petersburgo e, mais tarde, em 1829, conseguiu autorização para deixar o Império Russo. Ainda em Petersburgo, publicou um poema narrativo em polonês que se passa no século XIV, no Graão-Ducado da Polônia-Lituânia. A obra era um protesto contra a partição da Polônia entre o Império Russo, a Prússia e o Império Austro-húngaro.

O Levante Polonês-lituano 

            O levante polonês de 1830 e o movimento Dezembrista fizeram com que o Czar empreendesse um elevado grau de repressão e censura combatendo qualquer movimento ou manifestação cultural que pudessem ser de alguma forma relacionados aos poloneses. O resultado foi devastador, pois não só os centros políticos foram fechados, mas também, e talvez principalmente, os centros culturais e de ensino.
            Assim como Mickiewicz, foram muitos os poloneses que se dirigiram à Europa Ocidental, pois o espaço de atuação política no Império Russo se tornara muito difícil e perigoso. Mickewicz se dirigiu inicialmente à cidade de Roma e posteriormente se estabeleceu em Paris onde se tornou professor de cultura Eslava no Collège de France.

            No exílio, o poeta frequentava e fazia parte do universo acadêmico francês, que por essa época nutria um sentimento particularmente negativo com relação à Rússia. Para os intelectuais franceses a Rússia era o oposto do Ocidente. Se Paris era a cidade Luz, todo o Império Russo era marcado pelo obscurantismo. Outro círculo frequentado por ele era o dos demais exilados, particularmente dos lituanos e poloneses que se reuniam na França.

            Nesta atmosfera marcada pelo exílio, pelo sentimento anti-Império Russo e por um ambiente intelectual influenciado pelo movimento romântico é que Mickiewicz escreveu sua mais importante obra, que começou a circular em 1834 denominada O Senhor Tadeu ou O Último saque a Lituânia. A História de Um Nobre Homem entre os anos de 1811 e 1812 (Pan Tadeusz, czyli ostatni zajazd na Litwie. Historia szlachecka z roku 1811 i 1812 we dwunastu księgach wierszem)

            Numa síntese, bem simples: A história tem como pano de fundo a partição da Polônia-Lituânia pós-guerras napoleônicas e se passa na localidade de Soplicowo, que ficara sob a ocupação do Exército Russo. Sob esse fundo histórico é narrado o amor de um Senhor Feudal Sr. Tadeu por Zosia. Entre os episódios mais importantes da história está a revolta espontânea da população local contra a presença russa.

Observemos o primeiro verso:



Litwo! Ojczyzno moja!                                                Lituânia! Minha Pátria!

ty jesteś jak zdrowie;                                                   Você é como a sanidade

Ile cię trzeba cenić,                                                      O quanto você deve ser valorada,

ten tylko się dowie, Kto cię stracił.                              somente descobre quem já te perdeu


            Contudo, é importante observarmos que muitas vezes o poeta se refere aos “Eslavos Orientais”, ou poderíamos dizer Bielorrússia. Do conjunto da obra temos, portanto, um autor que se expressa em polonês, invoca a Lituânia como “minha pátria” e que se refere à Bielorrússia. Neste sentido, vemos que o que Mickewicz manifestava era um saudosismo idealizado do Reino da Polônia-Lituânia e de sua autonomia política e cultural com relação ao Império Russo. Assim, em seu projeto nacional, jamais poderia considerar que algum dia Lituânia, Polônia e Bielorrússia pudessem formar Estados Nacionais separados um dos outros. Para ele, todo esse conjunto formava uma só unidade, uma só identidade - embora diversa - a qual chamava de “minha terra”. Em síntese, o projeto de autonomia não se baseava em aspectos “étnicos”, como os nacionalismos posteriores irão invocar para legitimar os Estados Nacionais.

            É preciso considerar que essa perspectiva não era uma excentricidade, ou um fato particular. Muitos ativistas, que defendiam a autonomia polonesa e lituana tinham como horizonte político reestabelecer a União Polônia-Lituana com as bases tendo como divisão territorial esta unidade política antes da Tripartição destes territórios entre o Império Russo, Áustria e Prússia. E se tomarmos essa territorialidade almejada teria que ser incluída a parte ocidental da Bielorrússia e uma parte norte da Ucrânia.

            Dentro do espírito romântico da época, Mickiewicz não limitou suas ações às palavras. Durante a Guerra da Criméia, entre o Império Russo e o Império Otomano, ele se juntou às frentes de combates europeias que apoiavam a luta contra a Rússia e assim morreu em 1850.


Os usos da obra de Mickiewicz.

            Na segunda metade do século XIX, a obra de Mickiewicz começou a ser utilizada como referência por aqueles que preconizavam uma maior autonomia do Império Russo e mesmo a sua independência. Entre os intelectuais mais importantes é preciso citar o escritor Vincas Kudirka (1858 – 1899). No seu poema dedicado à Lituânia, ele faz uso da primeira frase da obra de Mickiewicz, traduzido para o Lituano e passando do singular para o plural.


Lietuva Tėvyne Mūsų              Lituânia, Nossa Pátria.


            Com a independência da Lituânia o poema foi adotado como hino nacional do país (Tautiška Giesmė, Canção Nacional), entre 1919 até 1950 quando se adotou um novo hino para a então Lituânia Soviética. Com o fim da União Soviética (URSS), em 1991, o hino voltou a ser adotado. Assim, vemos como a poesia de Mickiewicz influenciou a geração que o seguiu e que lutava pela independência da Lituânia.

            Um fato a ser destacado. Após o levante polonês de 1863, lideranças do movimento nacional lituano, que procuravam afastar a imagem dos lituanos da dos poloneses enviaram um oficio ao Czar, argumentando que este deveria liberar o idioma lituano para diminuir a influência do polonês na região e que Mickiewicz deveria ser reconhecido como poeta lituano e não polonês, e assim retirando uma das inspirações polonesas pela luta nacional. Observamos deste fato que poderia ser apenas curioso que para os nacionalistas lituanos, já no final do século XIX, se colocava a questão de como se afastar da influência polonesa e ao mesmo tempo buscar uma maior autonomia (ou independência do Império Russo). É na tensão entre buscar uma identidade diferente da polonesa e na recusa ao domínio do Império Russo (e da cultura russa) é que se forjará um nacionalismo lituano radical que assumirá o discurso étnico.


Caráter nacional lituano?

            Ainda assim, o uso da obra de Mickiewicz para os nacionalistas lituanos fazia-se bastante complicado: como poderiam então os Lituanos transformar uma obra com essas características em uma obra sobre o caráter nacional lituano?


            A resposta eu já ofereci no início do texto: simplesmente operando uma falsificação. Já os poloneses não tiveram esse trabalho, pois para o projeto nacional polonêsa Lituânia, em particular Vilnius, era vista como parte da Polônia. Por fim, os soviéticos não tiveram razão para falsificar o texto, já que a Lituânia era representada como Lituânia Soviética com a capital em Vilnius, os poloneses foram forçados a se retirarem e, portanto, não era mais possível que aquele texto pudesse causar alguma forma de ressentimento nacional.

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