terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A Lituânia e Eu


Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
Twitter:@erickrgzen


     

A Lituânia e eu temos uma longa relação. Pode parecer arrogância começar a apresentar a história de um país a partir de uma relação pessoal que se tenha com ele. Contudo, a minha relação com a Lituânia começou muito antes de pensar em um dia  ser historiador, de conhecer o país e mesmo de entender qualquer coisa sobre a sua política. E eis que ela aparecia nos momentos mais estranhos do dia-a-dia de um descendente. Não por acaso comecei a estudar a Lituânia pelos seus imigrantes, que são e, ao mesmo tempo não são, parte de sua história. Ao longo dos meus próximos textos vou tentar mostrar como essa relação é bastante complicada e construída ao longo de uma história repleta de tensões. Uma coisa é certa, seja qual for o ponto de vista que adotarmos, não é possível escrever uma história da Lituânia sem considerar os seus imigrantes...Comecemos, portanto por aí. E seguimos pela formação histórica do país. Boa viagem!


GODLIAUSKAS

            No ano de 2006, a imigração lituana para o Estado São Paulo completou 80 anos. No entanto, a trajetória destes imigrantes ainda é desconhecida da maior parte do público brasileiro. No âmbito da historiografia somente nos últimos anos começou a ganhar destaque através de estudos acadêmicos, livros e artigos publicados em periódicos nacionais. Em parte, esse desconhecimento pode ser atribuído à tumultuada história desta pequena república do Báltico, que conheceu a plena independência em apenas dois momentos: de 1918 a 1942 e desde 1991, com o fim da União Soviética.

Posso aqui “puxar” pela memória. Lembro-me dos meus anos escolares quando a União Soviética (URSS) ainda estava desenhada nos mapas mundi. Como era comum nas aulas de Geografia, e creio que ainda seja, a professora perguntava aos alunos de onde vieram seus pais ou avós. Após ouvir a resposta localizava no mapa, o local indicado pelo aluno. No meu caso respondi que meus avós vieram da Lituânia no ano de 1930. Com um olhar um pouco perdido ela apontou para o enorme território da União Soviética (URSS), identificado com a cor vermelha, e exclamou:

                     - Ah! Eles vieram da União Soviética, um país comunista!

GODLIAUSKAS
            
             A referência comunista” não se fazia presente no meu vocabulário político, ainda! De certa forma, a construção da frase soou como uma característica negativa. A dimensão da União Soviética (URSS) no mapa sempre havia me intrigado, pois as fronteiras da Lituânia não estavam ali definidas, tão claramente como a de outros países. Afinal, onde ficava a Lituânia?
Em 1991 ocorreu o colapso da União Soviética (URSS), com 12 das suas 15 repúblicas declarando independência. A partir desta data, o “antigo mapa” teve que ser redesenhado e as fronteiras da Lituânia foram remarcadas. Isso não significou o fim dos meus problemas com a professora de geografia que, atualizando seu discurso, fazia questão de explicar:

                        - Ah! Lituânia, ex-República Soviética?

A União Soviética mais uma vez aparecia como referência e agora, ainda pior, como “ex”. Os textos e mapas dos livros didáticos daqueles anos eram engraçados, porque os capítulos sobre a URSS não haviam sido modificados em profundidade: traziam apenas um “ex” na frente de tudo: “ex-União Soviética”, “ex-comunista” e assim por diante. Era difícil, aos olhos de uma criança em idade escolar, entender o porquê das mudanças conceituais. O texto -- atualizado às pressas para acompanhar a realidade daquele momento histórico -- continha palavras que pareciam “fora de lugar” como, por exemplo: “busca da liberdade”, democracia, capitalismo e nova ordem mundial. Um pouco mais tarde foi adicionada a palavra "globalização" que ainda carecia de uma definição melhor 



           O fato era que poucos conseguiam explicar o que havia acontecido com a ex-União Soviética. Por que deixou de existir? Ouvíamos longas narrações que pareciam ainda mais incompreensíveis, sobretudo com as palavras em russo como Perestroika e Glasnost difíceis de escrever e de decorar. Em meio ao turbilhão político que agitava aquela porção do globo, eu redescobria meu passado, enquanto descendente de lituanos. Contava para isso com a minha avó que gostava de narrar as suas memórias, de falar algumas palavras no idioma lituano e de, eventualmente, preparar algum prato típico. Portanto, recuperar a trajetória desta imigração significa recuperar a minha própria e que, no coletivo, se identifica com os hábitos de milhares de outros descendentes de lituanos espalhados pelo Brasil.

Após o colapso da União Soviética (URSS), a história da imigração lituana assumiu um novo significado e o tema da Guerra Fria entrou para os manuais de Geografia e de História Contemporânea, como um marco do século passado.

A partir desta ruptura histórica, podemos avaliar as tensões e os conflitos que tanto influenciaram na integração dos lituanos no Brasil, deixando para trás as hostilidades e os discursos moldados naquele período. A esse respeito se faz necessária uma observação acerca das histórias da imigração europeia para o Brasil. Geralmente, ainda hoje, esta é apresentada como algo mítico. As narrativas descrevem uma mesma trajetória: o imigrante pobre e arruinado que deixou seu país de origem em busca de melhores oportunidades e, apesar das dificuldades e como fruto de seu trabalho, conseguiu se realizar e viver feliz, na classe média. Com esse tom idílico as histórias de imigrantes têm um final feliz - e por que não dizer moral? - sucesso e realização financeira como fruto do trabalho...

Essas narrativas idílicas se tornaram a “história oficial” das colônias de imigrantes sendo comumente apresentadas em eventos festivos, exposições e, até mesmo, nos impressos produzidos pelas autoridades comunitárias. Não raramente a história é reduzida a mero colunismo social retrospectivo, alinhando cronologicamente os “feitos” das famílias mais “importantes”. Sem meias palavras, essa perspectiva enfatiza a trajetória daqueles que possuem mais recursos financeiros e, mesmo porque, financiam tais atividades. O resultado é que diversas trajetórias são silenciadas como algo inconveniente, feio e que, por assim ser, deve ser esquecido.

Enfim, ao insistir na integração épica do imigrante no Brasil a historiografia e o discurso oficial silencia os conflitos com o Estado brasileiro, marcado por políticas discriminatórias e repressivas.  As lutas políticas e sociais. Muitas vezes, apela-se para o reducionismo lembrando os imigrantes apenas como realizadores de festas e de uma culinária típicas que, certamente têm o seu na história e na memória desta comunidade. Mas, não são os únicos elementos a serem lembrados, mesmo porque um grupo de imigrantes não é constituído por uma massa homogênea de pessoas ávidas por manterem suas “tradições” em terras distantes.

Contudo, tal fato ainda parece estar distante das pesquisas mesmo no âmbito acadêmico. Honestamente digo que ainda nos falta pensar de forma mais consistente sobre a história política dos imigrantes no Brasil, ou melhor, na América, já que esse está longe de ser um problema exclusivamente brasileiro.

Cabe então uma reflexão sobre identidade e a pergunta: Quem São os Lituanos? Deixemos, por agora, os imigrantes aqui na América e retomemos a história deste país ltico.

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