segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Lituânia: Um Estado Nacional Moderno


Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
Twitter:@erickrgzen
            

O primeiro problema para escrever a história de um país (e do seu povo) se resume à pergunta: por onde começar? Se tomarmos a literatura que se pauta pelo nacionalismo ou por uma percepção tradicional e por que não dizer conservadora? – vamos perceber que a origem de um país será atribuída a “tempos imemoriáveis”, uma antiguidade longínqua perdida no tempo. Em casos mais radicais, e o lituano é um deles, se buscará mesmo na Arqueologia a prova de que, naquele espaço territorial desde que o primeiro homem (e mulher) deu os primeiros passos já se formava uma cultura particular, distintas das demais, um povo! Que ainda que em germe descobriria a sua essência ao formar um país, um Estado nacional autônomo politicamente.

            Desta visão, forma-se uma narrativa histórica que desde esta antiguidade idealizada até o contemporâneo atravessa os tempos para expressar a essência de um “povo”. No caso dos lituanos, ainda hoje muitos livros de história escritos por renomados intelectuais colocam como ponto de partida da história da Lituânia o momento em que as primeiras “tribos baltas” se estabeleceram na região e ali desenvolveram seu idioma e cultura. Não raramente essa narrativa vai ainda mais longe, insistindo inclusive em dizer que o idioma lituano descende diretamente do sânscrito sendo assim “o mais antigo idioma da Europa”.

            Como se não bastasse, outras tantas datas comemorativas e não menos míticas vão sendo agregadas. Em 2009, a Lituânia comemorou os seus mil anos. Ou melhor, mil anos da primeira vez em que o nome Lituânia aparece por escrito em um documento:

No ano de 1009 St. Bruno, também conhecido como Bonifácio Bispo e monge no 11º ano de conversão, foi golpeado na cabeça por pagãos na fronteira entre Russ e Lituânia e com mais 18 de seus irmãos entraram no Céu no sétimo dia depois Ides de Março (15 de março)...

            Esse trecho foi encontrado na Abadia do Convento de Quedlinburg e escrito no século XIX, quando o citado Bispo teve por missão batizar o Rei Netimer, que como relata o documento, bom, parece que não foi bem sucedida assim. Não vou entrar aqui no enorme debate em torno do documento: se a palavra utilizada é ou não é Lituânia. Se a referência é a um grupo humano ou a uma região, etc. deixarei para os especialistas e medievalistas, filólogos e afins. O que vale ressaltar é a mística que se construiu sobre o documento ao ser transformado em símbolo nacional ou uma espécie de carta fundadora da “lituanidade”.

  Duas ironias a serem observadas:

A primeira é que um país com diversas organizações católicas e muitas vezes com certo orgulho desse catolicismo tem como “documento fundador” o assassinato de um Bispo.

O conhecimento sobre este documento se deu na Segunda Guerra Mundial, quando o Exército Vermelho avançando sobre o território europeu recolhia os documentos que lhe eram avaliados como mais importantes. Ou seja, é um documento que se tornou conhecido e divulgado já na Lituânia Soviética.

Convertido em data nacional comemorado com diversos eventos patrocinados pelo Estado e por empresas privadas e celebrada em todas as comunidades de imigrantes lituanos espalhadas pelo mundo. As comemorações nas datas nacionais têm um apelo muito forte no sentido de construir relações emocionais entre o indivíduo e a comunidade ou Estado Nacional. Em outras palavras, o sentimento difundido é que todos os lituanos pertencem a um grupo com identidade e território próprio que já completou mil anos de existência.

            Mas afinal existe uma relação entre as tribos nômades que passaram pela região do báltico e o Estado Nacional lituano contemporâneo?

            Esse é um dos problemas centrais!


Os Estados Nacionais são fenômenos da modernidade. Sua formação pode ser remontada ao fim do século XVIII e início do XIX. Para a Lituânia, especificamente, o movimento nacional só tomará forma no final do século XIX, em um momento de profunda crise e transformação no Império Russo. É desta crise econômica, intelectual e de identidade que nascerá um movimento nacional lituano que dará feição ao que conhecemos como Lituânia hoje e as manifestações “nacionais-culturais” que identificamos como representações desta coletividade. Temos assim que buscar meios para entender as formas dessa crise e como ela resulta em diversos movimentos nacionais, entre os quais o lituano. Mas antes de entramos propriamente neste aspecto, gostaria de analisar com um pouco mais de calma a história de uma obra literária também utilizada como símbolo fundador da identidade nacional lituana. Trata-se do poeta Adam Mickiewicz e   seu mais conhecido poema narrativo Pan Thaddeus.

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