domingo, 30 de dezembro de 2012

Vilnius. Uma cidade memorável

Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
Twitter:@erickrgzen





VILNIUS é uma cidade memorável. Depois de sobrevoar parte da Lituânia vindo da Alemanha, finalmente o avião da Lufthansa pousou no Aeroporto de Vilnius. Um aeroporto pequeno e charmoso que, ao contrário da maioria dos aeroportos do mundo, não fica distante da cidade. Na primeira vez que lá estive, fazia muito calor e na segunda muito frio. Talvez porque a própria cidade de Vilnius consiga ser quente e fria, não raramente ao mesmo tempo.

Foto: Vilnius por @erickrgzen

Uma olhada pela janela, um caminhar pelas ruas e as muitas faces da intricada história desta cidade começam a ser reveladas nos detalhes da sua arquitetura. Na parte antiga da cidade, velhos prédios, muitos deles reconstituídos depois de serem devastados pelas guerras que ali foram travadas. Nas tortuosas ruas de paralelepípedo, subimos e descemos leves declives, ruas como muitas histórias para contar. Mas, muitas destas histórias, mesmo os que ali vivem, prefeririam não lembrar.

Quando saímos abruptamente de construções antigas, ou reconstruídas como antigas, caímos na arquitetura da União Soviética. Uma arquitetura marcada pela ideia de funcionalidade, racionalidade, grandeza e modernidade. Avenidas largas e asfaltadas para uma cidade que nem tem tanto trânsito assim. Prédios quadrados, frios, brancos e cinzas de concreto sobreposto à velha arquitetura. Praças gramadas e arborizadas no verão que se convertem em um branco desolador no inverno. Com um olhar atento, vemos as marcas dos antigos mosaicos que decoravam os prédios soviéticos. Alguns deles foram substituídos por placas de propaganda, o contraste entre a velha revolução e o novo capitalismo que enfeia a cidade com seus letreiros de luz brega.


Em outros espaços, principalmente nas praças e áreas públicas, há também as marcas de onde ficavam as velhas estátuas soviéticas. Lenin, Stalin, Marx, em bronze já habitaram aqueles espaços. Aos poucos, foram substituídos por heróis nacionais ou por espaços vazios. Sempre achei que os espaços vazios na arquitetura também, de alguma forma, marcam certos vazios na memória. E a memória de Vilnius é muito intricada. Possivelmente, para cada pessoa que você pergunte e, a depender da sua nacionalidade, lituana, polonesa, russa, bielorrussa vão ter uma forma diferente de contar a história desta cidade.


Foto: Vilnius por @erickrgzen

A cidade de Vilnius sofre com as muitas modernidades que buscou. Bairros novos de vidro e metal imitam a arquitetura de Nova York no seu estilo Donald Trump - mescla de vidro e metal que formam enormes caixas de sapato vertical. Vidro e metal, a marca do maior do pop-capitalismo selvagem e antiestético. Nos bairros distantes e em velhos palácios sobressaem as construções soviéticas, negadas, descuidadas e quase inteiramente decadentes. A arquitetura, que tentava de alguma forma expressar o socialismo, é vista como feia, como algo que deveria acabar... Ser esquecida até cair completamente. Não merece cuidados. Não raramente é apontada como marca de uma vergonha.

Em meio a estas sobreposições, velhas igrejas católicas e ortodoxas e os vestígios de sinagogas. Tudo isso pode se mesclar em um único quarteirão. Da praça “soviética” onde estava um grande Lenin se pode ver uma aberração de inspiração Donald Trump por trás de uma velha igreja de séculos anteriores. Alguém que consiga fazer uma observação por Vilnius descobre os seus vários tempos históricos, sobrepostos desorganizadamente como se um quisesse se sobrepor e, desesperadamente, cobrir com urgência ao outro.


As noites de Vilnius nos seus restaurantes, nos seus bares e casas noturnas revelam os aspectos sombrios que ainda recortam a cidade. Vilniuso é uma cidade receptiva. A cidade é separada por divisas invisíveis que, não raramente, através da truculência, afrontam aqueles que ainda não conhecem seus espaços. Seus códigos. Seus símbolos.

Foto: Vilnius @erickrgzen
Existem já os espaços que esperam por turistas. São muitos! Mas saindo dos lugares destinados a estes encontramos uma Vilnius que pode te barrar na porta, de um restaurante ou bar, se você não for lituano. Que pode te rejeitar se por engano você pedir, em inglês ou lituano, para entrar em um bar frequentado por russos ou poloneses. Não, você não é bem vindo e é bom aprender isso rápido antes que acabe em alguma confusão e sem entender o motivo. Além desses grupos mais visíveis, outros descobrimos aos poucos.


Conto que uma vez, sentado na rodoviária esperava meu ônibus para voltar para Kaunas, onde estava hospedado. Frio, tomava um café sentado no banco de frente para a plataforma olhando os ônibus chegarem e saírem. Noto que uma das plataformas começa a ficar cheia de tralhas e sacolas e muitas mulheres que carregam cada vez mais coisas: cadeiras, pequenos móveis, caixas, comida, etc. Para onde iria tanta gente? Encosta um ônibus velho e feio cujo destino era Minsk. Os bielorrussos que conseguem sair de seu país se dirigem a Vilnius para comprar tudo o que é possível para levar para os recantos do país mais fechado da Europa. Outra comunidade ainda menos visível é a dos judeus ou descendentes que ainda preservam algo da cultura iídiche...

Foto: Vilnius por @erickrgzen

Tantos idiomas que dividem as ruas da cidade aparecem nos momentos mais inusitados do dia-a-dia. Encontrei um restaurante. Entrei para comer algo com cerveja. A garçonete aparece na frente da mesa, sem sorrir, e pergunta em lituano de forma tão rápida que devo ter feito cara de assustado sem saber o que dizer. Olhou-me por um segundo e perguntou em russo. Não reagi. Ela me olha de novo e me perguntou algo em polonês. Fiquei estático olhando para ela. Finalmente, em um inglês bem arrastado me perguntou o que eu queria comer. Fico pensando em quantos lugares do mundo a garçonete de um bar fala naturalmente e espontaneamente tantos idiomas. 


Vilnius tem lá seus mistérios e entender a história e os conflitos desta cidade é um desafio. Surgida miticamente do sonho de um rei. Centro dos desejos de formar o centro da União Polonesa-Lituana. Invadida a força por Napoleão, que dali quis até levar uma igreja para Paris. Centro cultural subversivo do Império Russo, ocupada por forças polonesas. Destruída pelas forças nazistas, que aniquilou a população judaica. Reinventada como capital da República da Lituânia Soviética. Hoje a cidade se esforça para se “unir” novamente à modernidade europeia...

Alguns artigos sobre Vilnius na imprensa internacional: 
http://www.lithuaniatribune.com/26638/vilnius-through-the-eyes-of-expats-and-the-huffington-post-201326638/







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