terça-feira, 20 de maio de 2014

Documento da Semana: Passaporte! A foto e uma História de Gênero



Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
Twitter:@erickrgzen




As fotos de um passaporte muitas vezes revelam uma historia de gênero. Depois de muitos anos, consegui pela primeira vez ter acesso a um dos passaportes utilizados pela minha família (Godliauskas) para emigrar da Lituânia para o Brasil. 

Neste passaporte, encontrei diversas referências sobre a trajetória da minha família que até então desconhecia. Entre elas, a data exata da imigração, saída e chegada, o local da última residência, etc... 

A foto do passaporte, com toda a família, mostrava algo um pouco mais sensível e pessoal: os rostos, as expressões nos olhares, as caras de assustados diante da maquina fotográfica ou do futuro incerto que os esperava... 

Empolgado, comecei a mostrar a foto para um e para outro, até que uma amiga me mandou a seguinte pergunta: por que estão todos os membros da família em uma mesma foto de passaporte? 

Boa questão! Eu não tinha muita ideia do que responder na hora. Passando a empolgação e olhando mais cuidadosamente me dei conta de que aquela foto para um documento oficial também nos comunica uma história de gênero

Primeiro é preciso notar que o documento é da minha bisavó. No documento está explicitamente escrito: "autorizada a viajar somente acompanhada do marido".  

Ou seja, na Europa do início do século XX, em particular na Lituânia, ao se solicitar ao governo o fornecimento de um documento cabia ao homem estabelecer se a mulher poderia viajar sozinha ou não! 

Daí, a razão da mulher, não autorizada, ser fotografada junto ao marido nos documentos oficiais. Assim, as autoridades nas fronteiras dos países, nas estações de trem e nos portos deveriam verificar pela foto a identidade dos dois (marido e esposa) antes de autorizar o embarque ou desembarque, a entrada e saída de um país para o outro.

No limite, essa ação do Estado, por meio de sua burocracia, impedia a circulação das mulheres desacompanhadas de seu marido!  

Na foto também constam a minha avó, a primeira da esquerda para a direita, e seus irmãos, pois como eram menores de idade, não tinham um passaporte próprio e seus nomes eram colocados no passaporte da mulher. Dessa forma, para se deslocar de um país a outro de forma oficial e regular a família necessariamente teria que estar sempre junta ou seria impedida pelas autoridades estatais. 

Eis como uma pequena foto de um documento revela uma relação entre gênero, poder e Estado. 

A mesma relação pode ser vista no sobrenome, mas isso fica para o próximo post... 


























segunda-feira, 12 de maio de 2014

A Armadilha da Memória e Seus Usos.


Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
Twitter:@erickrgzen



                                                                                                                                                         


A armadilha da memória e seus usos pode ser percebida na data de nove de maio, quando é celebrado o Dia da Vitória do Exército Vermelho (da União Soviética) sobre o Exército Nazista (Alemanha) durante a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945). A data durante o período de existência da União Soviética foi sempre uma das mais importantes no calendário oficial. Desfiles gigantescos de armas, tropas e aviões buscavam mostrar ao mundo a pujança militar daquela potência, sobretudo em tempos de Guerra Fria. A questão é o que fazer com essa data comemorativa após o fim da União Soviética?

            Como ficou claro no último 9 de maio, a ssia parece ter absorvido aquela data como a sua data nacional. Não obstante incorporando todos os símbolos comunistas (a foice e o martelo, a estrela vermelha, as bandeiras) como símbolos nacionais russos. Não raramente vemos demonstrações de saudosismo soviético, com fotos de Lenin, Stalin e até mesmo de dirigentes da KGB sendo carregados em cartazes. Se a ssia de uma forma incorporou as vitórias do Exército Vermelho no seu simbolismo nacional, o mesmo não pode ser dito dos demais países que fizeram parte da União Soviética, muito embora muitos cidadãos destes países tenham participado e lutado contra o nazismo nas fileiras do Exército Vermelho.

            Na Lituânia, por exemplo, a única comemoração noticiada na imprensa internacional foi realizada pela comunidade russa, ou de língua russa, naquele país em particular em um cemitério na cidade de Vilnius, a capital do país. E de fato os cemitérios e tumbas com os restos mortais daqueles que combateram na Segunda Guerra Mundial estão espalhados por todos os lados da Lituânia, pois ali os combates foram bastante intensos também.  Eis uma reflexão que escrevi na minha última visita ao país sobre os cemitérios.

Cemitério. Exército Vermelho, Žagarė. Lituânia, 2010.

* * *

Os Outros Esquecidos

            Em diversas cidades da Lituânia um incômodo monumento está à vista de quem queira ver: os cemitérios dos combatentes do Exército Vermelho que caíram ao longo da sangrenta campanha que se arrastou no país. Um duplo sentimento se estabelece. Por um lado, são a celebração da vitória contra o nazismo e a ocupação alemã. Por outro, era o estabelecimento do regime comunista na Lituânia e a sua integração à União Soviética.

            Durante o período soviético esses cemitérios foram cuidados, preservados e eram até mesmo lugares de celebração. Com o fim do regime, virou um incômodo, pois se criou ao longo das últimas décadas uma memória e uma história oficial antissoviética - não raramente antiesquerda, como forma de afirmação da independência.

            Nos livros de história, o comunismo é sempre apresentado como algo externo aos lituanos. Como se não houvesse lituanos comunistas e quando esses trabalharam em prol da União Soviética são chamados de colaboracionistas, da forma mais pejorativa possível. Ou como meros oportunistas. Assim, ser lituano é ser anticomunista e quem escrever contra ou tentar discutir - negar - o "genocídio" soviético pode ser punido com a mesma lei que pune aqueles que tentam negar o holocausto.

            Ainda não raramente, em muitos livros, tenta-se enfatizar a quantidade de "não lituanos" nas organizações comunistas naquele país. Isso equivale a dizer que pela expressiva quantidade de judeus, russos e polacos no Partido Comunista Lituano ele não seria legítimo. Muitas vezes essas referências são feitas de forma discreta, espalhadas entre as páginas, mas estão lá.

            Podemos comparar aqui a Lituânia com a ssia e entendermos a diferença. Os russos incorporaram os "feitos" soviéticos a sua memória e a suas datas cívicas, como o Dia da Vitória, ou ainda todas as vitórias olímpicas e...não menos importante... o mausoléu de Lenin continua no mesmo lugar.

            Na Lituânia, a União Soviética é expelida da memória. Qual o problema? O problema é que isso acaba por esconder a participação de lituanos em sacrifícios e feitos importantes, como derrotar o nazismo. Em Šiauliai, por exemplo, um batalhão inteiro do Exército Vermelho era composto por lituanos e parte da historiografia nega isso afirmando que havia mais russos. Para complicar, o esforço de guerra, tal como esse batalhão, teve como grande suporte os imigrantes lituanos que desde a América, Norte e Sul, enviavam suas contribuições.

            Da mesma forma, os partisans comunistas que lutaram contra a presença nazista são em alguns casos chamados de terroristas e a eles são atribuídas as respostas à ação dos comunistas, numa inversão histórica inaceitável, mesmo para a péssima literatura histórica.

            Assim, aqueles que não se somaram às lutas antifascista e nazista na Lituânia são esquecidos ou difamados. É fato que o regime soviético por todas as atrocidades cometidas, e que não podem ser esquecidas ou negadas, representa um trauma, uma ferida que será difícil de fazer cicatrizar e já não estou certo de que se deve deixar cicatrizar.

            Mas a ferida aberta não pode infeccionar toda a memória lituana. Desprezar ou ter vergonha de seu passado não ajuda, menos ainda falsificá-lo deliberadamente. Os cemitérios aos combatentes, ainda que estejam com os nomes escritos em russo e não tragam todos os símbolos comunistas, estão ali para lembrar do que foi lutar contra o nazismo. Dos sacrifícios de homens e mulheres que entregaram sua vida contra o fascismo e o nazismo e nisso estavam certos em fazer. Foi um sacrifício que valeu. O que aconteceu depois não pode ser imputado a eles e suas memórias não podem ser desprezadas.