segunda-feira, 12 de maio de 2014

A Armadilha da Memória e Seus Usos.


Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
Twitter:@erickrgzen



                                                                                                                                                         


A armadilha da memória e seus usos pode ser percebida na data de nove de maio, quando é celebrado o Dia da Vitória do Exército Vermelho (da União Soviética) sobre o Exército Nazista (Alemanha) durante a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945). A data durante o período de existência da União Soviética foi sempre uma das mais importantes no calendário oficial. Desfiles gigantescos de armas, tropas e aviões buscavam mostrar ao mundo a pujança militar daquela potência, sobretudo em tempos de Guerra Fria. A questão é o que fazer com essa data comemorativa após o fim da União Soviética?

            Como ficou claro no último 9 de maio, a ssia parece ter absorvido aquela data como a sua data nacional. Não obstante incorporando todos os símbolos comunistas (a foice e o martelo, a estrela vermelha, as bandeiras) como símbolos nacionais russos. Não raramente vemos demonstrações de saudosismo soviético, com fotos de Lenin, Stalin e até mesmo de dirigentes da KGB sendo carregados em cartazes. Se a ssia de uma forma incorporou as vitórias do Exército Vermelho no seu simbolismo nacional, o mesmo não pode ser dito dos demais países que fizeram parte da União Soviética, muito embora muitos cidadãos destes países tenham participado e lutado contra o nazismo nas fileiras do Exército Vermelho.

            Na Lituânia, por exemplo, a única comemoração noticiada na imprensa internacional foi realizada pela comunidade russa, ou de língua russa, naquele país em particular em um cemitério na cidade de Vilnius, a capital do país. E de fato os cemitérios e tumbas com os restos mortais daqueles que combateram na Segunda Guerra Mundial estão espalhados por todos os lados da Lituânia, pois ali os combates foram bastante intensos também.  Eis uma reflexão que escrevi na minha última visita ao país sobre os cemitérios.

Cemitério. Exército Vermelho, Žagarė. Lituânia, 2010.

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Os Outros Esquecidos

            Em diversas cidades da Lituânia um incômodo monumento está à vista de quem queira ver: os cemitérios dos combatentes do Exército Vermelho que caíram ao longo da sangrenta campanha que se arrastou no país. Um duplo sentimento se estabelece. Por um lado, são a celebração da vitória contra o nazismo e a ocupação alemã. Por outro, era o estabelecimento do regime comunista na Lituânia e a sua integração à União Soviética.

            Durante o período soviético esses cemitérios foram cuidados, preservados e eram até mesmo lugares de celebração. Com o fim do regime, virou um incômodo, pois se criou ao longo das últimas décadas uma memória e uma história oficial antissoviética - não raramente antiesquerda, como forma de afirmação da independência.

            Nos livros de história, o comunismo é sempre apresentado como algo externo aos lituanos. Como se não houvesse lituanos comunistas e quando esses trabalharam em prol da União Soviética são chamados de colaboracionistas, da forma mais pejorativa possível. Ou como meros oportunistas. Assim, ser lituano é ser anticomunista e quem escrever contra ou tentar discutir - negar - o "genocídio" soviético pode ser punido com a mesma lei que pune aqueles que tentam negar o holocausto.

            Ainda não raramente, em muitos livros, tenta-se enfatizar a quantidade de "não lituanos" nas organizações comunistas naquele país. Isso equivale a dizer que pela expressiva quantidade de judeus, russos e polacos no Partido Comunista Lituano ele não seria legítimo. Muitas vezes essas referências são feitas de forma discreta, espalhadas entre as páginas, mas estão lá.

            Podemos comparar aqui a Lituânia com a ssia e entendermos a diferença. Os russos incorporaram os "feitos" soviéticos a sua memória e a suas datas cívicas, como o Dia da Vitória, ou ainda todas as vitórias olímpicas e...não menos importante... o mausoléu de Lenin continua no mesmo lugar.

            Na Lituânia, a União Soviética é expelida da memória. Qual o problema? O problema é que isso acaba por esconder a participação de lituanos em sacrifícios e feitos importantes, como derrotar o nazismo. Em Šiauliai, por exemplo, um batalhão inteiro do Exército Vermelho era composto por lituanos e parte da historiografia nega isso afirmando que havia mais russos. Para complicar, o esforço de guerra, tal como esse batalhão, teve como grande suporte os imigrantes lituanos que desde a América, Norte e Sul, enviavam suas contribuições.

            Da mesma forma, os partisans comunistas que lutaram contra a presença nazista são em alguns casos chamados de terroristas e a eles são atribuídas as respostas à ação dos comunistas, numa inversão histórica inaceitável, mesmo para a péssima literatura histórica.

            Assim, aqueles que não se somaram às lutas antifascista e nazista na Lituânia são esquecidos ou difamados. É fato que o regime soviético por todas as atrocidades cometidas, e que não podem ser esquecidas ou negadas, representa um trauma, uma ferida que será difícil de fazer cicatrizar e já não estou certo de que se deve deixar cicatrizar.

            Mas a ferida aberta não pode infeccionar toda a memória lituana. Desprezar ou ter vergonha de seu passado não ajuda, menos ainda falsificá-lo deliberadamente. Os cemitérios aos combatentes, ainda que estejam com os nomes escritos em russo e não tragam todos os símbolos comunistas, estão ali para lembrar do que foi lutar contra o nazismo. Dos sacrifícios de homens e mulheres que entregaram sua vida contra o fascismo e o nazismo e nisso estavam certos em fazer. Foi um sacrifício que valeu. O que aconteceu depois não pode ser imputado a eles e suas memórias não podem ser desprezadas.

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