quarta-feira, 22 de abril de 2015

Documento da Semana: a poesia em memória a Alfonsas Marma


Uma poesia para um ativista político. 

Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
Twitter:@erickrgzen


                              Trecho da poesia Em Memória. Foto do livro Mataram Alfonsas Marma  


A poesia em Memória a Alfonsas Marma foi escrita a partir de um episódio ocorrido em 1949, quando a polícia de São Paulo, denominada de Força Pública à época, assassinou três militantes do Partido Comunista Brasileiro, o PCB, na cidade de Tupã no interior do Estado de São Paulo. Entre eles o imigrante lituano Alfonsas Marma. Marma era um experiente militante que atuara na associação étnica Rytas e na imprensa étnica dos imigrantes lituanos em São Paulo, tais como nos jornais Garsas, Mūsų Žodis. Expulso do Brasil na década de 1930 atuou no Uruguai onde fundou os primeiros jornais comunistas em idioma lituano naquele país. Mais tarde colaborou com jornal progressista Darbas, também editado na capital uruguaia.

Retornou ao Brasil clandestinamente e colaborou decisivamente na formação da revista política cultural Rytas. Organizou o jornal clandestino Tiesa, durante a Segunda Guerra Mundial (1939 - 1945), que expressava, em idioma lituano, as posições políticas do Partido Comunista Brasileiro (PCB)

Após a Segunda Guerra Mundial, os comunistas acreditavam que poderiam atuar de forma mais livre, com o fim da ditadura de Getulio Vargas e a aprovação de uma nova carta constitucional (1946). No entanto, quando o partido foi colocado novamente na clandestinidade, em 1948, a repressão passou a ser violenta. Alfonsas Marma foi novamente preso. Solto voltou a participar das atividades do PCB e foi dirigido a cidade de Tupã juntamente com outros militantes. Ali, descobertos pela polícia, foram assassinados. 

A morte de Alfonsas Marma teve impacto em toda a coletividade lituana, em particular para os que se colocavam ao lado do comunismo

Entre os que ficaram chocados com o assassinato, estava o imigrante lituano Linas Valbasys poeta que contribuiu para diversos jornais comunistas lituanos. Valbasys escreveu o poema tributo a Alfonsas Marma que foi publicado inicialmente no jornal lituano-uruguaio Darbas

Na década de 1950, Linas Valbasys retornou seu país de origem, que naquele período era uma república soviética. Na então Lituânia Soviética trabalhou como escritor publicando alguns livros de poesia. Em uma dessas coletâneas publicou novamente o poema Em Memória dedicado ao camarada tombado pelas armas da polícia paulista. 

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quarta-feira, 18 de março de 2015

Jornal Momentas

Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
                                                                                                                                  Twitter:@erickrgzen




O jornal Momentas foi publicado na década de 1930. Uma década marcada por um momento de especial tensão e polarização política. De um lado o crescimento do nazi-fascismo na Europa com a ascensão de Hitler em 1933 e o início da Guerra Civil Espanhola, por outro, a reorganização da esquerda e das organizações comunistas diante destes eventos. Essa polarização também afetou a vida cotidiana dos imigrantes lituanos na América. Os imigrantes lituanos, assim como os demais imigrantes, sustentavam organizações de diferentes matrizes ideológicas que iam da extrema direita à extrema esquerda.

Essas organizações também tinham de enfrentar, entre as diversas dificuldades, o Estado e a Polícia Política. Assim, muitas delas foram fechadas devido à repressão a esquerda ou às políticas nacionalistas adotadas pelos países sul-americanos, como foi o caso do varguismo no Brasil.

Na Argentina, os lituanos já haviam desenvolvido uma imprensa étnica bastante consistente e para difundir suas concepções antifascistas os lituanos de diferentes orientações de esquerda, socialistas e na sua maioria comunistas, formaram uma cooperativa de imprensa denominada Talka que teve como principal jornal o Momentas.

A intenção da publicação era realizar uma ampla mobilização entre os lituanos na luta contra o nazifascismo. Essa luta, vale lembrar,  era dirigida também contra o governo lituano, pois  Antanas Smetona era um  admirador de Mussolini. Assim, o jornal não se manifestava contra os eventos que ocorriam na Alemanha, Itália e Espanha, mas também sobre o governo lituano e as organizações lituanas nacionalistas na América que recebiam o apoio do governo de Antanas Smetona.

O jornal Momentas também foi o principal órgão que mobilizou os lituanos de esquerda durante a Guerra Civil Espanhola. Era nele que os principais eventos naquele país eram analisados a partir de uma perspectiva Republicana da Guerra. Era também o órgão que trazia informações sobre o papel que os voluntários lituanos desempenhavam no conflito.

Assim como diversos jornais de esquerda o fim do Momentas se deu de forma abrupta, quando a polícia de Buenos Aires fechou a cooperativa alegando que ali se realizavam atividades comunistas, no ano de 1943.

Apesar da sua curta duração, uma questão relevante sobre o jornal foi a capacidade desenvolvida para fazer circular. Embora produzido na Argentina o jornal era distribuído com regularidade e frequência também no Uruguai e no Brasil, passando mesmo pelos diversos sistemas de censura impostos pelo governo brasileiro. 
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segunda-feira, 2 de março de 2015

Documento da Semana: A revista Rytas




Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
Twitter:@erickrgzen




A revista Rytas foi uma das publicações da imprensa étnica lituana em São Paulo editada em idioma lituano. A Rytas foi publicada entre os anos de 1936 e 1937 e era vinculada à associação lituana que levava o mesmo nome. A revista foi a expressão dos lituanos progressistas de São Paulo reunindo aqueles que não se alinhavam com as organizações católicas ou nacionalistas.

Inicialmente a revista era dirigida por Pijus Storpirstis que era conhecido como importante poeta da imprensa étnica da comunidade lituana em São Paulo. No entanto, Storpirstis faleceu muito jovem, aos 25 anos de idade vitimado pela tuberculose, que de forma epidêmica se espalhou pela cidade durante a década de 1930.

Em 1939 foi formada uma nova comissão editorial. Nessa comissão participaram membros do Partido Comunista, como os ativistas Alfonsas Marma e Antanas Zokas. Durante a Segunda Guerra Mundial foi a voz do movimento antifascista e antinazista, comemorando as vitórias do Exército Vermelho. No entanto, as leis de nacionalização adotadas pelo ditador Getúlio Vargas proibiram a publicação como a circulação de jornais e revistas em idioma estrangeiro e a revista foi encerrada em 1941.


Assim como a revista, a Associação Rytas também teve que enfrentar a repressão policial, após o ano de 1948, quando o Partido Comunista foi colocado na ilegalidade e a esquerda, em geral, passou a ser perseguida. Assim, diversos participantes foram encarcerados. Alfonsas Marma, após um período de prisão, foi assassinado pela polícia, em 1949. Nessa conjuntura, diversos ativistas lituanos decidiram por retornar ao seu país que agora era uma República Soviética, colocando fim às organizações lituanas que se identificavam com os ideais socialistas no Brasil.