segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

testemunho da história

Por: Dr. Erick Reis Godliauskas Zen
Twitter: @erickrgzen

Quando os lituanos chegaram ao Brasil na década de 1920 encontraram uma situação bastante difícil, principalmente nas fazendo do interior paulista. Nas fazendas de café, nos frigoríficos a esperança por encontrar terra à disposição morreu na exploração do trabalho e na vida precária. Uma testemunha desta história registrou a chegada dos lituanos e como eles tiveram que viver...

Irineu Luís de Moraes, conhecido como "Índio", nasceu em 1912 e foi um importante militante na organização sindical dos trabalhadores rurais no nordeste de São Paulo. Em 1930 ele ingressou no PCB (Partido Comunista Brasileiro). Índio muitas vezes discordou da direção que o Partido tomou, sobretudo da forma como negligenciava a questão agrária. Em 1945 organizou a Liga Camponesa de Dumont, a primeira do Brasil. Durante a Ditadura Militar (1964 - 1985) ele aderiu à Aliança Nacional de Libertação, liderada por Marighella. Preso, foi torturado e condenado. Permaneceu dois anos na prisão. Liberado em 1974, ele retomou às atividades junto ao PCB. Em 1986 abandonou o Partido e no ano seguinte ingressou no Partido dos Trabalhadores (PT). 


Em suas memórias Irineu deixou a seguinte observação sobre a chegada dos imigrantes lituanos na década de 1920: 

"O frigorífico era dos ingleses. Um dia chegou uma leva, um trem completo, lotado de pessoas: homens, mulheres, crianças, todos lituanos daquele lado da União Soviética. Eles vieram numa miséria danada, mas o frigorífico os recolheu. Foram instalados num barracão muito grande. Botaram todo mundo lá, mais de quinhentas pessoas, numa promiscuidade danada. Era uma coisa. Bom, a gente não tinha nada com isso: o frigorífico pôs os lituanos no barracão, está bom. Mas logo depois, notamos que a direção do frigorífico chamou cinco ou seis mulheres lituanas para trabalhar na secção da lataria de banha. Elas entravam lá, não sabiam falar português, não sabiam nada, mas as brasileiras foram ensinado o serviço. Dentro de quinze dias as lituanas já estavam praticamente fazendo tudo, porque era trabalho prático.
De repente os ingleses mandaram as brasileiras embora. Dispensaram as brasileiras para ficar com as lituanas porque o salário delas era menor. Nós prestamos atenção naquilo." 

Referência: WELCH, Cliff  SEBASTIÃO, Geraldo. Lutas Camponesas no interior paulista: Memória de Irineu Luís de Moraes. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, p. 30.  

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